sábado, 28 de novembro de 2009

Singularidades do viver norueguês

A Noruega é sem dúvida alguma, um dos melhores países para se viver. Segundo a OCDE, ocupa o 1º lugar no ranking dos países com melhor qualidade de vida. Não conheço os outros países, mas asseguro que a vida aqui, tem muuuita qualidade!
Não deixa de ser, no entanto, um país com um estilo de vida estranho para quem vem do Sul da Europa.
O dia-a-dia cá começa muito cedo. Por volta das 5h da manhã, já anda meio mundo na rua a caminho do trabalho. O horário laboral tenta aproveitar o melhor possível as horas de sol, que no Inverno se põe por volta das 16h (aqui no Sul, porque mais para Norte, nem se chega a ver o sol!). Assim, a maior hora de ponta ocorre por volta das 15h, quando toda a gente vai para casa. Sem stress, que esta gente não tem pressas.
O povo cá da terra almoça às 11h. Comem uma fatia de pão integral com algo por cima (pode ser queijo e fiambre, alface e atum, etc etc, mas SEMPRE com rodelas de pepino) e está feito. Hábito estranho, para quem como nós está habituado ao bife com batata frita, massa com frango ou uma bela feijoada; E jantam por volta das 17h, mas desta vez já uma refeição quente de faca e garfo. Vão para a cama cedinho, à hora a que eu normalmente como o meu jantar, e tudo recomeça no dia seguinte antes das 6h.
Sobre a vida propriamente dita, é boa.
O sistema de saúde é um mimo, sendo a nossa equipa de trabalho, clientela assídua do hospital de Kristiansand (entorses, cortes, gripes, dedos partidos, ...). Desde a senhora da recepção até ao último especialista que nos atende, o tratamento que é dado às pessoas é o exemplo a seguir. Aqui somos tratados como humanos, pessoas de carne e osso como qualquer médico, que não anda cá com as peneiras e tiques dos senhores doutores de Portugal. O mesmo se aplica a engenheiros, advogados, políticos e até mesmo aos membros da Família Real. A sociedade norueguesa assenta no pressuposto de que todas as pessoas merecem o mesmo respeito e a mesma consideração, e isso vê-se e sente-se.
A Noruega, que era um dos países mais pobres da Europa até à década de 60, é hoje o país com a maior reserva de dinheiro do mundo. O petróleo é a grande fonte de riqueza do Estado, que obriga as empresas petrolíferas a ceder parte dos lucros para o Tesouro Público. E é esse dinheiro que tem sido utilizado para desenvolver o país. Cá não falta dinheiro para as reformas das próximas cinco gerações. Tal como não falta dinheiro para hospitais, escolas, pontes, e todas as infraestruturas que fazem falta. Quando há eleições, o grande debate entre partidos é sobre a melhor forma de gastar o dinheiro. Aqui não se discutem casos de corrupção, de crimes de colarinho branco ou de esbanjamento criminoso de dinheiro. Aqui discutem calorosamente se determinado fundo é melhor empregue num hospital novo, ou num troço de auto-estrada; discute-se se determinada pessoa é competente ou não para determinado cargo, discute-se se a política de ajuda ao exterior é a mais indicada. São estes os pontos de desacordo entre os diferentes partidos. Não há "tacho", não há compadrio. E não é por estarem a nadar em dinheiro, é porque são donos duma mentalidade que preza valores diferentes dos nossos. É claro que há criminosos e cadeias, como em qualquer parte do mundo. Mas esses são o desvio, a minoria. Na generalidade, as pessoas são honestas e correctas, metidas na sua vida e desinteressadas do que não é seu. Os miúdos deixam os brinquedos na rua. Ninguém lhes leva as bolas ou as bicicletas. Vamos aos bares e podemos deixar malas e casacos em qualquer parte, que ninguém mexe. O "amigo do alheio" não abunda por cá. Vive-se em segurança e com confiança.
Outra coisa muito diferente da nossa realidade, é a vida nas estradas.
As estradas norueguesas são más. Contra-senso, para um país tão rico! Mas a explicação é simples: quando a Noruega descobriu que tinha petróleo, o dinheiro foi primeiro utilizado para dar melhor qualidade de vida às pessoas. Investiu-se na saúde, nas redes de apoio social, na educação, no sistema de pensões e reformas. Investiu-se numa rede de transportes públicos eficaz, com destaque para os vôos internos (que vão para qualquer ponto do país, a preços bastante acessíveis). E as estradas foram ficando para trás. Agora que tudo funciona bem, o país virou-se finalmente para a rede viária. Que não sai barata, porque qualquer pequeno troço de auto-estrada, tem que furar imensas montanhas e atravessar uma quantidade incrível de rios e fiordes. O custo de qualquer estrada, é obscenamente elevado! Por isso ficaram para o fim.
Outra grande diferença, é o cumprimento das regras de circulação. Os limites de velocidade são baixíssimos (muitas vezes, 80 km/h nas melhores estradas) e o alcoól é de todo proíbido quando se conduz. Desta forma, a sinistralidade na estrada é praticamente nula. É mais provável alguém ter um acidente por levar de repente com um alce que salta para a estrada, do que por embater em outro veículo.
Quanto ao estacionamento, esqueçam isso de pôr o carro em cima do passeio ou de o deixar estacionado de borla. Todos os lugares de estacionamento são pagos, e as multas são pesadas para quem prevarica (a falta de pagamento dá direito a uma multa de 700,00 Coroas - cerca de 80,00 Euros). Mas se quiserem arriscar, é conduzir depois de beberem uma cerveja. Fica-se sem carta, vai-se passar a noite na prisão e a multa é uma percentagem do ordenado.
Outra coisa gritante são os preços. Um café custa 21,00 Coroas (2,50 Euros). Um litro de leite são 3,00 Euros, o mesmo preço dum pão. O pão, por mais variedades que haja, é sempre sem graça e desenxavido. Qualquer português sente falta do nosso pãozinho ao fim dumas semanas.
Coisa para esquecer cá, é a qualidade do serviço na restauração. Simplesmente, não há qualidade. Por muitos sorrisos que nos ofereçam, é impossível não desesperar quando temos de esperar 10 minutos ou mais para nos servirem um café. Bares e restaurantes são um suplício para quem espera pelo serviço. Mas não para os noruegueses, que nunca stressam. Para eles, está tudo bem, é tudo nas calmas.
E que saudades dum talho!... Na Noruega não há talhos (salvo raras excepções). A carne é toda embalada e vendida nos super-mercados. Também não há os mega-centros comerciais como nós temos, o comércio encerra às 17h, as lojas não abrem aos Domingos, e as bebidas alcoólicas são vendidas em lojas especiais, do Estado, chamadas Vinmonopolet (literalmente, "monopólio do vinho").
À noite, o pessoal sai e embebeda-se como se não houvesse amanhã! E é um corropio de táxis e autocarros a levar toda a gente para casa. Ninguém conduz, claro. E ninguém arma desacatos. Estes nórdicos são uns bêbados pacíficos e amistosos. Querem é festa e folia (muito diferentes do ingleses, que só armam confusão).
Podia escrever dois volumes de 600 páginas sobre as diferenças entre portugueses e noruegueses, mas fico por aqui. Mais tarde hei-de voltar ao assunto.

2 comentários:

  1. Epah se isso é assim como dizes bem dito seja o nosso Portugal eheheh. Seduziste-me a uma viagem aí mas não para viver :)

    Abraço Padrinho

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