A obra de Kilden é uma louca cavalgada todos os dias, a do hotel em Fevik está mais calma. Duas obras completamente diferentes, distanciadas 50 km uma da outra, que me ocupam a totalidade dos dias.
É Sábado, são 10h da manhã e vou finalmente poder organizar toda a papelada que tenho de enviar ao chefe. Relatórios e mais relatórios. A parte menos emocionante desta actividade - eu gosto mesmo é de andar na obra!
Lá fora estão oito graus negativos ( -8º C ). Com o vento gelado a soprar, tarefas tão básicas como atender o telefone são fatais! No final duma chamada de poucos minutos, tive dores nos dedos como nunca antes senti. Parecia que me tinham martelado os dedos e espetado pregos neles em seguida. E a orelha fica completamente anestesiada, nem se sabe se ainda está no sítio.
É horrível, é o que tenho para dizer. A conjugação de temperaturas negativas com este vento que vem do Ártico, é um cenário simplesmente horrível. E os meus homens trabalham assim, como quer que esteja o tempo, sempre sem parar. Nunca paramos, nunca atrasamos. Esta raça portuguesa está a deixar os nórdicos perplexos com tamanha capacidade de produção. Há atrasos na obra, mas nunca por nossa culpa. Pode ser a bomba do betão que está congelada, ou entregas de materiais que não chegam a tempo, ou avarias nas máquinas, ou o vento que não deixa operar as gruas... há uma série de factores que influenciam o andamento da obra. Mas o emigrante português da construção civil, esse bicho irrequieto, prático e inventivo, nunca pára. Nem mesmo quando não existem as condições necessárias para efectuar as tarefas com a segurança exigida. E isso é bom e é mau. É bom porque coloca a produção sempre em primeiro lugar; é preciso fazer uma coisa, faz-se! Mas é mau porque estamos constantemente a ser chamados à atenção por causa da segurança. Um trabalhador a passar duma plataforma para outra, sobre duas tábuas que fazem de ponte, a 20 metros de altura, é daquelas coisas que deixa os nervos em franja aos responsáveis pela segurança (em que eu estou automaticamente incluído). Mas apesar de tudo (e isto é um problema de fundo, cultural, de práticas e hábitos menos "correctos" enraizados na nossa maneira de ser), a obra tem decorrido sem acidentes graves. Já aconteceu um dedo partido, uma lesão num joelho, limalhas na vista, cortes superficiais, entorces várias, mas nunca nada de grave e assim tenciono que se mantenha até final.
Todo o pessoal está já a caminho de Portugal para as férias do Natal. Na obra estou apenas eu e o director de projecto, o norueguês Hans Olav. Tudo calmo, tudo silencioso, tudo muito estranho sem o ruído e a azáfama típicas do dia-a-dia da construção.
As merecidas férias.

















































